O tango é um mentiroso perigoso
É um sonhador arrogante que arma ciladas. O tango é uma ilusão, e todo aquele que se deixa seduzir por seu encanto precisa compreender isso. Pobre de quem, acreditando nessa ilusão, lhe entrega as rédeas da própria vida.
É difícil acreditar que, em algum canto distante do mundo, exista um país onde vivem pessoas felizes que criaram uma dança da tristeza para o passado, uma dança que continua viva no futuro…
Muitos anos atrás, quando viajei pela primeira vez à Argentina, foi somente sentado no avião que percebi que voava rumo a um mundo completamente desconhecido para mim, um mundo que me fascinava desde a infância graças à história que meu avô contou sobre um primo que vivia do outro lado do oceano Atlântico.
Argentina… uma palavra mágica que, para mim quando criança, soava não apenas misteriosa e inalcançável, mas também orgulhosa e banhada de sol. Mais tarde, já bem mais velho, descobri o tango: outra razão, irrefutável e poderosa, para viajar até lá e contemplar com meus próprios olhos a terra onde viviam pessoas capazes de criar uma cultura de profundidade emocional tão extraordinária.
E ali estava eu, sentado em um avião que fazia a rota Paris–Buenos Aires. Voava para o país dos sonhos da minha infância sem conhecer uma única pessoa que vivesse lá, desfrutando da ideia de que — era novembro — ali era primavera e, meu Deus, aquilo era a América Latina!
De repente, minha cabeça se encheu de um milhão de perguntas: como vou me comunicar se não falo espanhol? Como chegarei do aeroporto ao hotel? De táxi, ônibus ou trem? Onde vou trocar dinheiro? Aceitarão cartões bancários? Será seguro? E se me roubarem assim que eu descer do avião?
Mas a Argentina me recebeu com hospitalidade, como se quisesse agradecer por tantos anos de amor por ela, mesmo antes de eu conhecê-la. Os conselhos das pessoas sobre como me comportar, por onde andar e quais lugares era melhor evitar; o grupo de portenhos — como são conhecidos os habitantes de Buenos Aires — sempre dispostos a me ajudar a me orientar na cidade bastava perguntar o caminho à primeira pessoa que encontrasse na rua; aquele primeiro “¡Buenos días!” que ouvi na manhã seguinte, dirigido a mim por vizinhos que tomavam mate na soleira da casa ao lado; os famosos bifes de carne bovina e o vinho intenso no restaurante familiar do taxista Nicola, no bairro portenho de Palermo, onde fui parar depois de contratar um táxi para conhecer a cidade à noite — e ele, além de tudo, nem sequer quis cobrar pela corrida: simplesmente desejava mostrar sua cidade a alguém que vinha de um país pequeno.
Antes de viajar a Buenos Aires, alguns conhecidos haviam me advertido para me preparar para uma possível decepção. Segundo eles, a cultura do tango praticamente havia desaparecido e tudo se transformara em pura comercialização e mau gosto. No entanto, para minha enorme alegria, descobri muito mais do que jamais teria imaginado. Em uma cidade de doze milhões de habitantes, as pessoas esperavam o ônibus em filas pacientes; os homens ainda cediam seus lugares às mulheres; havia centenas de escolas de tango e milongas; pelas ruas caminhavam damas que pareciam ter saído de um retrato inspirado em Eva Perón e homens seguros de si; e no teatro El Círculo, na cidade de Rosário, com suas sacadas douradas e seus lustres resplandecentes, a sala estava completamente lotada de espectadores que se abanavam enquanto cantavam um dos milhares de tangos.
A Argentina é cheia de contradições internas e de uma fascinante mistura de estilos e, ainda assim, tudo convive numa harmonia quase milagrosa. Há uma cola invisível que une coisas que, à primeira vista, se contradizem.
Naquele momento eu nem sequer poderia sonhar que, em 2013, estaria no palco daquele mesmo teatro, já como convidado de honra da cidade, dançando tango para aqueles que o haviam criado.
