É difícil aprender tango?
Provavelmente esta seja a pergunta que mais escuto de quem deseja começar a dançar. Por alguma razão, o tango ganhou a fama de ser “a dança mais difícil”. Acho essa reputação bastante exagerada, embora ela não deixe de conter um pouco de verdade.
Costumamos imaginar a dança como uma série de movimentos do corpo ao ritmo da música. No caso do tango, isso é verdade, mas apenas em parte. A música é o elemento central, o mais importante, o absolutamente indispensável do tango. Pode soar ao vivo ou apenas dentro de nossa cabeça. Mas precisa estar presente.
Não se pode dançar tango seguindo apenas a fórmula matemática de sua música, contando os tempos — por exemplo: “um, dois, um-e-dois-e” — e atribuindo a eles os valores correspondentes: lento, lento, rápido-rápido-rápido. Pelo menos não quando se dança por prazer. O tango é uma interpretação da música.
Por um lado, isso significa que posso dançar como quiser: estou interpretando a música. Há algo de verdadeiro nisso. Mas toda interpretação tem seus limites, definidos pelas regras do tango, assim como o professor ou a professora de língua e literatura nos indicava a perspectiva a partir da qual interpretar “À sombra dos altares” (Altorių šešėly), para que não nos perdêssemos em divagações.
O tango é uma dança profundamente mística: está repleto de contradições, de verdades diferentes que, em algum ponto distante, convergem para o mesmo lugar e depois voltam a se separar. Há nisso algo, por um lado, único e, por outro, profundamente humano; algo que, a uma enorme distância emocional, parece inquietantemente familiar. E é assim porque o tango nasce de nós: de mim, de você, deles… Ele é como nós mesmos somos. Só que, um dia, o tango que habita dentro de nós arranca nossas máscaras, e então ficamos tal como somos: com nossas virtudes, nossa arrogância, nossos sentimentos, nossas solidões e nossos amores.
