O tango tem muitos rostos

By: Sebastian R.Vale

O tango tem muitos rostos. Mas sua essência é surpreendentemente simples. Sem exigir nada de nós, ele nos pede uma única coisa: sinceridade.
Ele não exige que você mude. Há espaço de sobra para nos acolher como somos: alegres, orgulhosos, distantes ou brincalhões; sorrindo ou chorando. Recebe nossas emoções e permite que atravessem o corpo até se transformarem em movimento, sem tentar nos animar nem esconder o conteúdo por trás da forma. Permite — e até exige — que sejamos nós mesmos.
E nesse espaço também há lugar para a emoção mais extrema: a tristeza. Nesses momentos, o tango costuma se tornar ainda mais verdadeiro.
Uma vez, na Argentina, uma mulher desconhecida me contou uma história enquanto conversávamos em um café.
Eles voltavam de carro para Buenos Aires depois do funeral de um amigo. As palavras haviam acabado e só restava o silêncio. Então, um deles perguntou, quase timidamente:
— E esta noite?
…
— Vamos dançar tango?
Não porque fosse fácil. Não para esquecer. Mas porque precisavam permanecer com aquilo que havia: com o silêncio, com a dor e com algo que não julga, não exige nem arrebata, mas simplesmente se identifica com você e acolhe sua frequência. Porque, quando sua frequência e a do ambiente coincidem, você recupera a calma, como uma criança que é abraçada e apertada contra o coração.
No tango, a tristeza e a dor não são consideradas fraqueza. Muito pelo contrário: são uma fonte de profundidade.
Mas a tristeza aparece aqui apenas por seu caráter extremo e pelo paradoxo que encerra — porque costumamos associar a dança à alegria, e não à melancolia —, não porque seja uma condição necessária.
O tango é capaz de conter todo o espectro das emoções: da ternura à tensão, da nostalgia à paixão. A emoção nunca é um obstáculo; é a própria matéria da dança.
A vida exige de nós determinados estados de espírito: energia, entusiasmo, leveza. Convida-nos constantemente a sair de nós mesmos, a nos transformar em uma versão melhorada: mais belos, mais sedutores, mais fortes, mais brilhantes, e a continuar escapando eternamente daquela maldita “caixa”.
E se, às vezes, simplesmente não quisermos?
Pode parecer um paradoxo, mas não é estranho que seja justamente no silêncio do tango, em sua ausência de censura, que acabemos saindo dessa caixa e começando a mudar. Não porque tenhamos de fazê-lo, mas porque muda nossa maneira de olhar, nossas ideias, nossa visão de mundo. E, às vezes, simplesmente porque chegou a hora de querer mudar.
Aí reside o encanto do tango: em sua simplicidade. Ele nos permite ser quem somos hoje.
E nós nunca somos exatamente os mesmos.
A cada vez somos diferentes.
A cada vez somos um de seus muitos rostos.